Considerações acerca de um pôr-do-sol
23 de junho de 2006, 17 horas e 45 minutos em Porto Alegre. No horizonte há um corredor de nuvens que de tão sólidas anteciparam o poente. Anoitece, e ter esperanças parece-me um grande acontecimento, apesar de tudo. Um fulgor velado debateu-se nas entranhas gasosas, como um pássaro de fogo submerso. Algo que afunda e reclama em cores seu direito a explosão, por exemplo:
Um corpo rodeado por horizontes de areia dirige um grito para o céu, e conforme o grito sobe o corpo diminui;
Dois olhos de vidro espremem-se para enxergar, um palmo além do horizonte longínquo, sinais de terra firme;
Um pai chora seu filho;
Uma mãe dá as tetas de mamar, sabendo que não possuem leite;
Uma ampulheta vazia;
Um cão coberto de poeira olha para as folhas da copa de uma árvore;
Um cartaz de desaparecidos oferece recompensa;
Um banco;
Uma fazenda;
Dois olhinhos exprimidos do outro lado da grade;
A ferocidade do amor no auge do desespero;
A solidariedade no auge da desgraça;
A flor que brota no esterco;
Todas as utopias;
O silêncio dentro do trem;
Um penhasco com destroços na goela;
A noite que engole tudo;
A própria matéria deste sonho, que embalo em meus olhos de ostra.
Escrito por Lorenzo Ribas às 22h00
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Escrito por Lorenzo Ribas às 14h42
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Soa forte a chuva sobre a crosta
Inquieta, remexidamente, de fora
para dentro, a água
o barro borbulha nos estreitos.
Ouve-se o ar da respiração
da terra emergindo, parece,
de si mesma, nova, suave
Seu estio é incompleto ainda.
Quem, por fim, será testemunha
da forma de vida que virá?
Esta chuva, desesperado gozo
marca o nascimento no limiar.
Mas a vida há de nascer perante o sol
Fecunda e insegura, nos contrastes
então há de secar, há de chover
em atos repetidos de bondade.
Escrito por Lorenzo Ribas às 20h59
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Pela manhã tu és bela
és bela porque és livre
Tens a vida pela frente;
és livre e desperta.
Pela tarde também és bela
porque és menos livre
mais séria, também;
à tarde somos cúmplices.
Mas à noite és tão bela!
Aviva teu sorriso;
Não és livre nem séria:
és bela sem motivo.
Escrito por Lorenzo Ribas às 20h04
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Como se pássaro fosse
despontando no mergulho
do real da liberdade;
E com classe, feito ave
a romper o ar pesado
Como fosse sonora coisa,
Sim, como gritar pudesse;
Um pano desbotado
planou por sobre os prédios
E viu-se na cidade,
talvez reconhecido:
Coisa real e numérica,
larga, monótona,
que, tendo escapado, t a m b é m e r a c i n z a.
Escrito por Lorenzo Ribas às 00h43
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Sentei ao lado de um homem
Em cujo braço uma ferida
Rebentava bolhas, inflamava
Purulenta e amarela.
Senti o gosto de sangue
Nos dentes, na gengiva
Estávamos lado a lado:
Foi menor a solidão.
Escrito por Lorenzo Ribas às 19h10
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Andaluza
Das bandas da Espanha
um cheiro que chega
E feito de entrega
um gosto de entranha;
Cheiro de terra molhada que lava,
Ou cordas de fogo que brotam do solo,
Ou de uma estranha mulher que as engole;
E eu não sabia que a luz caminhava...!
Escrito por Lorenzo Ribas às 19h10
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A mutilação do totem
exige estatura térrea,
demanda que seja leve
a mão que mutila o cravo;
Terrestre
e repetidamente
leve
O totem
a tudo transmite sem ecos.
Em seu contato, feito de estalos
É seco. Reto. Imóvel.
A mão que mutila o totem não
fecha.
Desliza em vez
Macia em troca
e quando
descobre ser morno, o totem
a todo contato recebe.
É feito, não de pedra
De terra
É feito.
O totem treme
à carícia no ventre;
E no fundo, também é carne.
Escrito por Lorenzo Ribas às 20h27
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Vestígios do Barro
Foi longo o percurso e breve a estada
É cedo, cuidado, é tarde ainda
Dói imensamente inaugurar a trilha
feito ave:
O céu não tem medida.
Vôo galante: antecipo o vento nas penas
Desenterras pegadas escondidas
no pouso, no colo, no ventre.
É menos doloroso olhar sem rumo
tardar sem halo
Do que ver o silêncio
-Passo-pássaro-
investido no frágil vestígio do barro.
Escrito por Lorenzo Ribas às 20h19
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Fronteira dos corpos cúmplices
-A Ingmar Bergman-
As irmãs magoaram-se com tua visita
tens demais presença
estás muito viva
Tu, que reprimiste tantos gritos
escrevendo no caderno de sussurros
“Hoje é segunda, e eu estou sofrendo”
como poderias dormir
na vigília do quarto vermelho?
Cruzaram tuas mãos
Não foram banhadas
O cheiro de febre nas cobertas
nas roupas, levaste contigo
Entanto não és mais enferma
Não toleraste outra vez o silêncio.
Devias ter visto as faces lívidas
os corpos nas paredes do lado de fora
em cantos opostos, como sempre.
Ah, tu não abrias a porta!
Não chamavas seus nomes
com tua voz sonâmbula
apenas sussurrava
até partir o espelho
De todos os suplícios
que para tua última conta
prestar voltaste
O mais feminino e terrível
não podias resolver sozinha
tampouco podias por elas
demover a solidão imposta
Tu não viste suas caras: davam medo
Mais, bem mais do que a tua
Aquilo era o assombro!
Os rostos urravam
em silêncio o teu sussurro.
Tua companheira não quis vantagens de ti.
Os homens discutiam negócios
usando teu corpo de mesa.
As esposas –tuas irmãs-
nessa hora ainda fingiam
(A frieza e o cinismo
nunca lhes faltou, mas não as julgue
por seu desespero;
Tu foste, tu és, mais mulher que elas
deves entender bem.)
Àquela que te deu a mão
Esquentou teu corpo
Secou tuas faces
E no gesto febril e cúmplice
mais antigo gesto de vida
deu-te a dádiva do seio
Escrito por Lorenzo Ribas às 14h58
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A esta ofereceram, ridículos,
os homens uma lembrança tua.
Respondeu que nada esperava
inundando-os com teu silêncio.
Assim retirou uma esperança
Não sua: nossa.
Ela, que não temeu teu corpo
No auge da enfermidade
que sem levantar os olhos
enxergou tanto na pele
Que deitou contigo
e ofertou, em oração
o teu único pedido essencial
Ela, cujos olhos assombravam-se
ao ver o mundo dos vivos
caminhou passos seguros.
Ninguém fora tão longe
Ninguém fez-se tão perto.
Não foi a ti que ela tocou
mas ao teu pedido de vida.
Escrito por Lorenzo Ribas às 14h58
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Cai sem luz a tarde cinza,
desespera aos poucos.
De tudo que se esvai sem aviso
a tarde, o vôo, a vida
Dói mais perder os sonhos
O melódico sentido
A paixão incontida
O sorriso solto.
Dói mais perder aos poucos
O direito ao erro
E sem remédio ver
O mesmo velho novo
Em vão desconhecer espelhos.
Escrito por Lorenzo Ribas às 01h02
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Partir ruído
Romper todo
Ruído com gritos
Silêncio inédito
com raios
Es
ca
regar
À ferro
toda ferrugem
Estanca no corte
Através do grito:
“Parto!”
Escrito por Lorenzo Ribas às 17h01
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Alado elo Espelho que velo Sol no mar Amarelo.
Alada leva o sal na costela Sol na terra Amarela.
Escrito por Lorenzo Ribas às 18h29
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A Amilcar de Castro
Amilcar conserva
o traço do grito
pousado no corte
aéreo e restrito.
Amilcar enterra
nas dobras do ferro
E o peso sussurra
Seu ato suspenso
O drama figura
A forja do tempo
único gesto
vôo esgotado
determinado
ao desprendimento.
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h49
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D E L E G A D O D E L E
D E L E G A D O D E L E
G A D O D E L E G A D O
D E L E G A D O DELEGADO
DELEGADODELEGADODELE
ELEDELEGADODELEDADOD
G A D O D E L E G A D O D E
Escrito por Lorenzo Ribas às 00h46
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poemas infantis
BRINCADEIRA DE CRIANÇA
I.
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Roda mais que a Terra gira
ficas lindo nesse chão!
II.
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Se tu páras para tudo
pára até o coração.
III.
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Mãe, vem cá vem ver!
Que estranha sensação...
O peão me faz cosquinhas
quando gira em minha mão...!
Roda peão
Roda peão
Roda peão
Roda peão...
Escrito por Lorenzo Ribas às 00h36
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Epiderme
I.
O movimento das entranhas não se enxerga.
Nas águas estão enterradas, no vento dissolvidas. Na terra embruteceram superfícies.
II.
Verter é subverter
arvorar voracidades
Brotar o verde
da pálida crosta.
É sempre por baixo
o sentido
por trás dos olhos
é que verte.
Entranhar é ter
estranhamento
Brotar não se prorroga
Desentranhar
é ver a luta
por viver ter consumado.
III.
O que a combustão comove
o ar não arrefece
mas alimenta.
O ponto crítico
o epicentro
de toda criação
é comover a superfície
em calor e movimento.
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h31
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Semeaduras
De ti eu quero a prova, em carne e lavra
que tudo que ensinaste não foi vão
eu quero ver a luz que há no carvão
eu quero o derradeiro da palavra.
Contigo aprendo a vida ardente e nova
-da terra brota a obra de seu homem
na terra é que descansam quando dormem.-
Contigo eu quero ter a minha prova.
Deitar a face muda em teu outeiro
deter no seio um beijo ao vê-lo cheio
e ter nascido ao mundo que te invade...
Cumprir em ti meu ímpeto primeiro
do louro semear, e no semeio
em tudo semear humanidade.
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h08
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Na Solidez do Barro
Que a tua pegada coubesse no côncavo das mãos seria um deleite inconfessável, marca dócil no liso entremear das areias, no ondular febril, brusco, na aspereza contida. Seria eu a engolir o deserto, a habitar-me. Por fé, ausência por ausência, minha garganta iria dedicando a ti seu povoamento novo e renascente. Inconfessável não seria o desespero do gozo, que este era calmo, não era o sedento sôfrego, mas o andrajo que fora desfrutar da procura de seu desígnio, previamente conformado, e encontrou-o, vertical. Mas quando viu o céu movendo-se em espessas nuvens, sentiu a água deitada sobre as faces. Ah, esse era o inconfessável, sorvê-la, trair o deserto. Neste novo auspício do barro uma lâmina se desenterra, um espelho, um revés, pequena jangada de água no mar de areia. A face que encontro é toda nova. O sol também reflete e ofusca, mas esta gravura nasceu da prata. Eu, que obedeço aos desígnios da terra, ser mineral e solar; este andrajo que, nascido sob o sopro litorâneo, refugiou-se no deserto, vejo o céu que se move, e redescubro, mas não sem dor, os desígnios da água e da fé; eu, que visto de perto nego a mim mesmo, e sou fragmentário, pela solidão imposta; e finalmente eu, que recebo em mim a carícia do novo gesto, descubro a permanência na estranha e macia solidez do barro.
Escrito por Lorenzo Ribas às 18h14
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Ensinamento
Não trate uma mulher e nem destrate,
possuí-la nada é senão isso:
dar-lhe tudo o que lhe baste e dar-lhe mais
e na falta, garantir o que lhe falte.
Por certo deves tê-la em alta conta
e amá-la, e fazer com que perceba;
mas nunca diga nada que mereça
apenas elogie-lhe os defeitos.
Mentir por profissão é que amar
com o que haveremos de mudá-lo?
Pois mudem as mulheres e veremos
querem ver em ti medalhas e não lenços.
Assim como está posto é necessário
certo método pra sermos verdadeiros
Eu quisera poder ser também sincero...
Mas se amamos, mentiremos, só por elas!
Escrito por Lorenzo Ribas às 10h36
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Sou terra da seca no quando da chuva
sou barro que espuma na crosta mais quente
a vida e o cio mineral da semente
o chão e o retrato do céu que se move.
Barulho da bolha brotando
tensão que dissolve
e lama que seca
eco e borbulho
silêncio da seca no quando da chuva
Sou sempre alterado
sou definitivo
não sou de contrastes; meu nome é fusão
não venho da luta
eu sou seduzido
meu nome é inundado torrão
Já fui mineral metálico, lâmina
hoje sou orgânico
sou bruma brotando
de dentro do barro;
A minha explosão virou meu afago.
Porto Alegre, Maio/Junho de 2005
Escrito por Lorenzo Ribas às 13h04
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O filho que me dou
Este filho que me dou vai dar trabalho Mal não chega já me lota de perguntas, de embaralho
Quantas cores tem no mundo? Infinito é muito quanto? Que é nada, que é tudo? O que é um acalanto?
Que é que foi, meu pai, responde! E nós antes de nascer nós estávamos aonde?
Meu pai, mas o que é isso? Chorar sem estar triste e isso pode, e isso existe?
Ah, meu filho o que eu posso te dizer? Eu não trago uma resposta Deixa a vida te trazer.
Escrito por Lorenzo Ribas às 20h14
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O Cactus
Nascido no mais árido
onde mais estéril fosse
brotaria solitário
Assim, por improvável.
Não planta de flores
de longe se calcula
porque é planta mineral
mas de verde estentóreo
Assim, por improvável.
Assume o horizonte
desde a sua estatura
Por muito baixa que fosse
há muito já se enxerga.
Não a planta do suco
A planta solar.
Rastro fugidio
na palidez da pedra
Onde todo está vetado
e é pungente o silêncio
Onde não há movimento
parece
nem o sol se mexe
O cactus pulsa
cresce pouco a pouco
é lento, obstinado.
Na mais absurda manhã
da mais doce esperança
por puro improvável
do tédio, da solidão
ele nasce.
Porto Alegre, 26 de Abril de 2005
Escrito por Lorenzo Ribas às 13h06
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Estava escuro ainda. Mal a claridade roçara suas faces, o lago despertou. Era uma fria manhã, o céu aberto, o ar suspenso, paralisado; a respiração cessara, e tudo era silêncio. O instante de indecisão entre dia e noite não soara breve, e não dava a entrever seu fim, pela inevitável chegada do dia. E quem o testemunhou? Estes momentos são breves danças, escutemos um pouco, sedução no claro-escuro dos céus. Mas esta manhã de que falo, esta manhã não existe. Havia, como sempre, a promessa do fim, e só quem prendeu a respiração pôde vê-la congelada, plena, duradoura.
De repente o céu foi tomado por pressa, de repente havia chuva. O lago amanhecera sólido e encrespou, e a água deitou sem anúncio sobre a água. O lago despertara sólido, e seu arrepio foi medo e foi gozo. E a chuva partiu como veio.
Quando o ruído cessou fui novamente à janela; a manhã ainda iniciava, mas renascida, e foi assim que hoje eu lembrei de ti, não, de mim. As águas, agora habitadas, movem-se em densas correntes, neste silêncio de corpo banhado, neste silêncio de ter o dia todo pela frente.
Esta manhã não teve testemunhas, ninguém mais prendeu a respiração. Esta manhã, por um breve interlúdio, girou sobre si. Enchi os pulmões, mas não pude romper o seu gesto; seu ato de silêncio, feito de pausa e solidão.
Escrito por Lorenzo Ribas às 14h06
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URBANO, DEMASIADO URBANO, (parte I)
Passei o feriado de Páscoa na fazenda de uma amiga, aqui vão algumas impressões:
A casa era orientada para o sul, um pouco à leste. O sol tingia as nuvens que se enquadravam do alpendre, por assim dizer, de fora para dentro. Suas primeiras cores nasceram não do sol, executaram outra escala, a do azul, que se ia avivando em seu interior, passando pelo petróleo, pelas notas eólias do lilás, então o turqueza, quando o céu já era de opala, e o sol já havia vencido os morros à oeste, derramando diagonalmente os seus raios laranjas, avançando pouco a pouco, coisa que só ocorre no amanhecer, a rapinar o pardo do solo, mas não como quem invade; antes como quem ara, criando uma linha divisória muito distinta, mas para a qual já se enxerga aquém e além. (A chegada da noite, ao contrário, é sempre horizontal, como se desabasse, leve como uma pluma no entanto, sobre toda a extensão da terra, e apenas no horizonte se vissem, a um tempo, todas as gradações que o plano irá sofrer.) Os filetes que depontavam da grama, subindo morros, descendo a baixada que vai dar no riacho, que formava um olho d'água nas imediações da casa antes de prosseguir, sabendo parecia que não se tratava de qualquer gente os dali, atravessada aqui e ali por solenes araucárias, com seus formatos de candelabros, ora esparsas, ora agrupadas, especialmente às margens do lago e perto do cimo dos morros (certamente por obra humana), iam os filetes do amarelo acastanhado ao avermelhado flavo, e, no olhar fotográfico com que tentamos fixar de um golpe todo o campo de visão, eram o desmembramento dos matizes do cobre e da ferrugem. O sol já atingia em cheio as nuvens, a orquestração azul abandonava-a, o amarelo e o laranja alastravam-se nas superfícies brancas, de cariada textura, borrando as partes enegrecidas. À direita, passando a ponte sobre o riacho, ficava o vilarejo, após um ligeiro declive. A capela é a primeira construção, logo atrás do seu campanário,se não for muita bondade chamá-lo assim, ao telhadinho, sustentado por duas varetas, que abriga o sino, a uma altura de uns oito metros. Nada impressionante, mas repare-se, em um local tão desprovido de construções que desgudrem-se do chão pouco mais que seus habitantes, tal medida é capaz de dar muito bem conta de seus propósitos celestiais. Após seguem-se casas, todas parecidas, despropositadas que seriam inovações arquitetônicas, todas muito práticas, em suas construções e para seus fins, todos também parecidos. Acompanham as leves variações de relevo como um lençol que o cobrisse. Por certo em tal localidade não seria o relevo a se alterar, mas sim os hábitos dos que ali vivem. Esgota-se logo em seguida, dando novamente lugar aos campos, pois ali pouca gente mora, e as terras a muito menos pretencem.
Na sexta pela manhã fui conhecer o lugar, um distrito de São José dos Ausentes chamado Silveira. Se foi algum fazendeiro, dono das terras ou das gentes, não sei. Mas em lugares que não são abençoados por um nome de santo cristão, ou batizados segundo alguma especificidade geográfica que fosse referência para as paragens pelas quais muitos já passaram mas poucos se detiveram, o mais certo é que seu nome provenha de alguém que comprou o apreço, impôs o temor, iniciou os fatos empregando gentes nos descampados, ou narrou o acontecido em causa própria ou dos seus. Fosse quem fosse, Silveira agora ganha um gentílico, sendo não nome de um, mas designação de alguns, não mais do que quinhentos, dos quais, talvez, nenhum Silveira.
Fui à cavalo. Maravilhosa sensação. Um belo metro que se ganha, mais tantas centenas na direção do horizonte, a velocidade do passeio adequável à apreciação, desapegada ou investigativa, dos arredores, a liberdade e a mobilidade, e o sem conta de terrenos que se pode enfrentar, e no mais apenas quem já subiu num cavalo pode compreender. O galope, a disputa com o animal, que é tal como dar ordens às crianças, novamente a liberdade, e mais os símbolos que em nossa cultura figuram, de poder, virilidade, a tudo, não se explica mais que isso; é preciso ter destas vivacidades.
O lugarejo, de perto, era o mesmo que de longe, sem surpresas. Vidas pacatas cruzam-se, ou antes se aninham,cães, alguns cavalos e jumentos, pares de olhos nas janelas, atentando à coisa alguma, o de sempre. Mas logo na chegada um acontecimento sem importância exceto a de não fazer parte dos demais dias, e acrescidas as importâncias de ordem espiritual e afetiva que cada qual medirá por si, e por aqueles recônditos onde não chegaram as maravilhas do progresso, devem ser ainda das maiores: algumas crianças, vestidas de branco como pedia a ocasião, estariam antes encenando alguma peça pascal, mas agora corriam entre a capela e as imediações da ponte. Não se imagine um enxame de crianças, que não passavam de dez, pois no lugar, como já se sabe, tudo é comedido. Mas eram como que a vigília de um corpo antes adormecido. Este espetáculo exceto pelas motivações de ordem religiosa, provavelmente superasse aquele para o qual se preparavam.
Escrito por Lorenzo Ribas às 19h52
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Por estas semanas eu andava lendo Drummond com avidez. O poema não está pronto, mas eu venho escrevendo tanta coisa, e nada "fica pronto", que decidi ir publicando algumas coisas assim mesmo, já que este espaço de publicação é possoal o bastante para eu poder alterá-lo tanto quanto queira. Bueno, lá vai:
Meu mundo, nosso mundo
de eterna despedida
sempre o ápice
sempre o fim
sempre o parto
Deixa-me ler tua confusa
tua desmemoriada trajetória
Os Prometeus não caem
Não se cansam do gozo
Em frenesi
Não sei o que é próprio
Desconheço meu sorriso
Quando brota
E estes seres capazaes de fitar a própria boca?
O meu fim?
Que saberei eu do meu fim, tão distante posta-se?
Exceto que coincidirá com milhões
de outros fins
de improváveis seres instantâneos
Tenta-me o sono e eu vacilo
mas não há noite
Todos os mistérios desceram
das estrelas, e povoam a nossa casa
Certo do breve interlúdio
e da imensidão do fim
Marejo e vacilo
Escrito por Lorenzo Ribas às 15h02
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Mas não há escuridão
Há holofotes em cada face imune
Não há medo
Não há fim
e afastada a possibilidade de qualquer contato
não há pânico
Um mosaico
O espaço totalmente preenchido
Em meio aos partos e desaparecimentos
E há filas de coisas novas
que jorram velozmente
acima e abaixo
O sono me domina
e junto o pânico
Não quero despedidas
quero o percurso transparente
o gozo e o suicídio
são neutros
Fechar meu canto num arco
domínio do percurso projetado
não quero ser fulminatne
não quero ser fugaz
quero ser humano.
Porto Alegre, 8 de Março de 2005
Escrito por Lorenzo Ribas às 15h00
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Matizes
(a alma vespertina do poeta)
Adormece após a luta no cimo
e desperta, cobre a face de outrora.
Deita vil, daninha, alimenta e chora
as auroras mutiladas, o Abismo
No intento crepuscular sonegava
o azul em favor de seus mil matizes
no sopé da luz percorre os deslizes
o sol quedado e veloz noite. E trava
uma batalha ínvia e previsível
que adormece o termo quando invade
e sopra, e canta, e cada vez mais arde
Tarda o pensamento, mas invisível
quando abranda a loucura enterra o brado
o rasgar a colina em descampado
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h10
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A Morte de Justine
Não há um vazio que de tão profundo
permita abrigar o meu negro abismo
nem há um terreno, por mais estéril
que aceite meu corpo, este meu cadáver.
A luz mais bondosa e soberba e soberba e sábia
faria-se breu, logo a mim tocasse
e nem a luxúria, e nenhuma igreja
teria o desplante de alimentar-me.
Aguardo com dor o sepultamento
ninguém testemunha a minha desgraça
e tudo começa a desmoronar
A múmia vendada que há muito sou
não tem mais lugar neste mundo cego
repleto de coisas e de vazios.
Porto Alegre, 2 de Fevereiro de 2002
Vós sois os mártires do vão repouso
do silêncio e do sono suicida.
Que rufem os tambores da partida
andar na Terra é menos doloroso.
Marchai, ó artilheiros iludidos
não permitis a fadiga nos rostos
é tempo de reaver nossos gostos
e mesmo sendo ao lado dos vencidos
é preciso reaver nossos erros
faz-se míster empunhar nossos ferros
urge o grito de dor e de derrota.
A calma não trará essas glórias.
Quem não traz tais ímpetos de vitórias
será pó da estrada mais remota.
Porto Alegre, 28 de Abril de 2003
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h10
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O Soldado
Em pé, mirando a mão dilacerada
pensava como um todo ainda forte
que a dor se regenera, mas o corte
apenas regenera-se na estrada.
Que um corte, mesmo que profundo fosse
não pode se deixar de receber
levanta a mão ferida pra beber
o quente ferimento ainda doce.
O gosto de ferrugem sob os dentes
brotando-lhe mais fogo no pulmão
e tendo ainda os lábios contra a mão
bradou mais uma vez os ferros quentes
a destra armada, a outra sem escudo
tombou sem dor nem deus num baque surdo.
Margem
O pânico esgaça as coleiras frias
os músculos vivos de orgasmos quentes
o morno dos corpos suados sentes
e mornas quimeras crianças crias.
Até conseguires parir um santo
demora-te em partos por outros meios
e sentes saindo-te o sal dos seios
e pensas que o mar não demora tanto...
Outrora esperavas o mar que enfim
agora te lança estes níqueis fortes
deixando em teu ventre profundos cortes.
E sentes perfumes de cobres vagos
e sentes calores de longos tragos
Ainda esperando teu serafim.
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h09
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Do ciclo
O Homem e a Estátua
Esquálida figura que promove o gozo
bebe em minha barbas o Temporal funesto
eu declaro ser ainda homem, de resto
homens aquiescidos são algo desastroso
não fujo à condição de homem, mas a de morto.
Eu declaro também meu desejo dormente
por subjugar estes efeitos da calma
alva figura a mostrar-me tua palma
vira o pescoço e inclina o torço pra frente
que teus olhos sejam leme e tua mão porto.
Veste branco, teu mármore negro lança
-o breu e a pedra camuflada em seus desígnios-
fita o tempo até marejar teus olhos ígneos
e ensina-me o tempo, e dar-te-ei nossa dança
e não abranda com breu meu olhar absorto
Porto Alegre, 26 de Abril de 2003
A Estátua e os Homens
Sucumbo hoje ao próspero perdão
a tudo que sucedo e não desejo
meu rosto mal enxerga de sobejo
e dorme atrás do côncavo da mão
Não olhai-me nos olhos, vossas almas
compader-se-ão de meu olhares
deveis tocar as mãos de vossos pares
e então sentir febris as minhas palmas
Fechai os olhos –férteis suicidas-
pois tendes mãos honestas e olhos verdes
-são âncoras tratadas como leme-
Tocai o mundo, intrusos de outras vidas
sereis humanos, logo assim quiserdes
que a mão do remador ao mar não teme.
Porto Alegre, 8 de Abril de 2003
Escrito por Lorenzo Ribas às 16h06
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Não faço questão da minha lira, ora envolta neste solilóquio, se não tomar, pouco a pouco, em segurança, o real. Quero que em sua atmosfera se amalgame a matéria, os homens, as coisas humanas.
Porque sim, sou porta-voz, quero ser herói. Se no mundo urge o heroísmo, não serei humilde. Sou arrogante. Arrogo-me a tarefa; não a creio demais para mim, nem para ninguém. Tampouco meu marasmo dirá: “não sou melhor que ninguém”. Serei o que tiver de ser, e que isso se multiplique. Quero o mundo em processo.
A humildade não é uma virtude, não em nossos tempos. Quem o afirma mente, distorce ou erra. A arrogância, ao menos com as coisas essenciais, é rara e necessária. Brota e florece outra, a arrogância egoísta. Este é todo o nosso cultivo, e neste passo, será todo o nosso legado.
Censuram um homem por querer fazer algo de verdadeiramente grande, por estarmos acostumados a grandiosos auspícios de posse. É uma antiga e a mais nova demência: o fruto do que de mais humano guardamos, a nossa cultura, nos desumaniza, tolhe e censura.
Não tenho conicções acessórias, não, tenho convicções motrizes. Não levo as minhas mais profundas crenças guardadas nos bolsos como fossem alegorias, peculiaridades que entanto não me atrapalham em ser um cidadão normal, produtivo e consumista.
De fato não: elas principiam muitas coisas. Hoje ter convicções é um padecimento, uma doença, um fanatismo. Não sou dogmático, muito longe disso, mas quero mudança, quero bagunça, quero conflito, e quero pra hoje.
Não envergonho-me de ser um quixote, se o for, de lançar-me a uma empresa a qual todos sabem falida, exceto eu, que tenho os olhos obliterados pela beleza da chance; envegonharia-me, sim, de sucumbir.
Não faço questão do meu nome nos livros, embora não despreze isso, mas não são essas as recompensas que busco. Sinto-me parte de algo fantástico. Sou responsável. Quero ver o mundo transformado pelos calos das minhas mãos.
Escrito por Lorenzo Ribas às 15h53
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